Efeito manada fica mais perigoso com a internet

Para os defensores da economia em rede, ou network economics, a internet mudou o conceito de “efeito manada” — e isso precisa ser incorporado por governos e empresas

A síndrome respiratória aguda grave, conhecida como Sars, fez sua primeira vítima fatal na China em novembro de 2002. A falta de informação sobre as causas da doença, que tinha características similares às da pneumonia, causou pânico mundial. Enquanto órgãos de saúde pediam cautela na avaliação do impacto da doença, correntes de e-mails, blogs e sites falavam da iminência de uma pandemia.

Em questão de horas, o pânico se espalhou. Primeiro, derrubou a taxa de ocupação de hotéis de Hong Kong de 80% para 10%. Em seguida, fechou escolas no Canadá, a milhares de quilômetros do foco da Sars. Nos dias seguintes, houve até boicote a restaurantes chineses nos Estados Unidos.

Meses depois, com menos de 1 000 vítimas fatais, descobriu-se que as consequências da doença foram brandas para padrões epidemiológicos. Já o prejuízo estimado com a desinformação sobre a Sars foi de 100 bilhões de dólares.

O caso da Sars aparece em um estudo publicado em 2009 pelo Bank of England com o título “Repensando a rede financeira”. Nele, o economista britânico Andrew Haldene apresenta casos que mostram como a economia global está mais vulnerável com o mundo conectado.

Haldene pertence a um grupo de economistas que defendem a existência do que chamam de “economia em rede” (tradução livre para network economics), uma nova tentativa de explicar o comportamento dos agentes econômicos. De acordo com essa escola, a informação tem um papel tão importante nas relações econômicas quanto o capital e o trabalho.

“Os efeitos da rede, o fato de que uma pessoa pode mudar sua preferência simplesmente na base do que os outros dizem, é o que define as regras do mundo moderno”, diz o economista inglês Paul Ormerod, autor do livro Positive Linking (“Conexão positiva”, numa tradução livre), lançado em julho na Inglaterra.

No livro, ele explica que as pessoas e as empresas, por estarem mais conectadas, tornaram-se mais suscetíveis a uma espécie avassaladora de “efeito manada”. Ormerod lembra que, em 2007, os bancos de paí­ses ricos estavam operando normalmente quando, de repente, informações sobre a crise no mercado imobiliário americano fizeram o pessimismo se espalhar e congelar a liquidez.

“Nada dramático havia acontecido ainda”, afirma. “Mas alguns bancos começaram a agir com cautela excessiva, fazendo outros seguirem aquela estratégia com medo de se expor ao risco.” Mais do que a dinâmica, o que chamou a atenção nesse caso foi a rapidez com que o medo se alastrou. Ao longo das últimas décadas, novas tecnologias na área da comunicação foram encurtando o tempo da disseminação das informações até torná-lo quase instantâneo.

O caso do banco americano Lehman Brothers é recorrente em pesquisas sobre a economia em rede. Segundo um estudo do Bank of England, o valor dos créditos podres em poder do Lehman Brothers na época da eclosão da crise, em 2008, não justificava o pânico gerado.

“O Fundo Monetário Internacional tirou 5 pontos percentuais na sua revisão de crescimento global para o ano seguinte depois da falência do Lehman”, escreveu Haldene. Fechado o ano de 2009, a economia mundial tinha encolhido 0,6%.

“Tenho certeza absoluta de que parte dos desdobramentos da quebra do Lehman Brothers tem relação com a tecnologia da informação. A capacidade computacional disponível no mundo fez com que víssemos um mesmo comportamento em escala global”, disse Jean-Claude Trichet, ex-presidente do Banco Central Europeu, durante um evento numa universidade de Berlim em julho. “E isso vai continuar tendo enormes consequências na economia real.”

A falência de uma empresa como estopim de uma crise não é inédita na história da economia. A quebra da bolsa de Nova York, em 1929, ajudou a levar os Estados Unidos à Grande Depressão dos anos 30. Para os defensores da economia em rede, a inovação está na velocidade com que as crises ganham uma escala global.

“A teoria econômica até hoje tratou o homem como um ser isolado, como se ele fosse um Robson Crusoé”, afirma o americano Rob Johnson, diretor do Instituto do Novo Pensamento Econômico, com sede em Londres e que tem o megainvestidor George Soros como um dos patrocinadores.

Para os críticos, a economia em rede pode até ajudar a explicar as recentes mudanças no cenário mundial, porém é um erro colocá-la como o fator principal. Afinal, ainda segundo os detratores, o que provocou a crise foram políticas irresponsáveis de crédito imobiliário e produtos financeiros com doses altíssimas de risco.

“É um exagero creditar tudo à conectividade das empresas e das pes­soas”,­ diz Daniel Monte, professor de economia da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Nos últimos quatro anos, as críticas à teoria econômica clássica aumentaram quase na mesma medida em que diminuía a perspectiva de milhões de famílias na maior parte dos países ricos.

É nesse contexto que aparece com mais destaque temas como o da economia em rede. Em um ponto, pelo menos, parece haver concordância: é preciso dedicar mais tempo e dinheiro para pesquisar a influência da era digital. Os padrões de comportamento do mundo offline não necessariamente valem para o mundo online.

Fonte: Bruno Ferrari, de EXAME

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Sobre Ramires, F A. Borja

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